
A padronização de condutas é um mecanismo técnico que deveria ser mais valorizado e aplicado, principalmente, nas salas de aula das faculdades de medicina e pelas entidades públicas ligadas à saúde.
E, é essa falta de padronização nas condutas médicas um dos fatores que leva todo sistema de saúde público ou privado a terem gastos elevados e desnecessários em muitos países.
Só para citar um exemplo, nos Estados Unidos, estima-se que 80% das prescrições médicas para antibióticos são indevidas e desnecessárias.
O dano desse absurdo não é só em relação aos gastos com antibióticos; temos que considerar os efeitos colaterais que muitos desses medicamentos podem causar.
Com o advento da descoberta da penicilina por Alexandre Fleming, muitos médicos passaram a dar mais importância aos antibióticos do que os cuidados que se deveria ter no ato cirúrgico.
Além disso, o uso indiscriminado da penicilina até em viroses – onde o seu uso é totalmente inócuo – resultou na resistência bacteriana, em especial na Pseudomonas Aeruginosa, bactéria muito danosa e comum no ambiente hospitalar, principalmente em Unidades de Terapia Intensiva (UTI).
Agora, com a gripe H1N1 notamos uma tendência via mídia para que o governo disponibilizasse comercialmente o anti-virótico, conhecido como Thargifur, para a população, disparando assim a busca pelo remédio na rede privada.
Acontece que esse medicamento só deve ser usado após a suspeita bem fundamentada do vírus, pois, o seu uso, como acontece com os antibióticos, também pode desenvolver resistência.
Mas, o mais significativo é que esse medicamento não age como uma vacina, ou seja, não adianta você tomar o medicamento de forma preventiva, já que o efeito do medicamento dura apenas 24 horas e você se torna novamente vulnerável ao vírus.
Além desse grave erro do uso indevido de medicamento temos que valorizar mais as campanhas e condutas efetivas nos casos de endemias e pandemias.
Algumas secretarias de saúde de cidades com risco de infecção adotaram medidas como a suspensão de aulas nas escolas e até jogos de futebol.
Baseado nessas condutas de prevenção, não seria um contra-senso, realizar uma festa que reúne milhões de pessoas como o carnaval ou micaretas?
Dentre tantos outros malefícios causados pelo uso indevido de medicamentos, a falta de padronização de conduta médica causa também um gigantesco prejuízo no tratamento das gastrites.
Há quarenta anos a gastrite não era tão valorizada como atualmente. Afinal, atribuíam como causas principais de gastrite a alimentação rica em condimentos, gorduras, frituras, frutas ácidas, bebidas alcoólicas, o estresse e fatores emocionais oriundos do estresse ou não.
Desde então, se deu muita importância à dieta no tratamento da doença, associado ao uso de antiácidos e leite. Quanto à importância do tratamento dos fatores emocionais para a cura da gastrite, como sempre, pela medicina curativa, pouca valorização foi dada.
Com aceitação da teoria dos cientistas australianos Barry J. Marshall e J. Robin Warren, de que a bactéria Helicobacter Pylori, descoberta pela primeira vez em 1875 por cientistas alemães, fosse a responsável pelo desenvolvimento da gastrite.
Segundo a dupla de australianos, a bactéria deveria ser combatida, principalmente, porque, em alguns casos, há a possibilidade de evoluir para o câncer gástrico.
A partir dessa nova teoria científica passou-se a divulgar no meio médico cientifico a importância do tratamento dessa bactéria que consiste, no esquema terapêutico mais usado no mundo; por sete dias são utilizados três antibióticos e um antiácido entre 14 e 28 dias.
Como se não bastasse essa discutível conduta por 50% dos médicos, passou-se a banalizar a indicação da vídeo-endoscopia e da pesquisa via biópsia endoscópica, da Bactéria Helicobacter Pylori.
Mas, o absurdo que mais me chama atenção é que com essa nova teoria, muitos cientistas, equivocadamente, passaram a dar importância exclusiva ao tratamento da bactéria e descartaram, como causa importante da gastrite, os fatores emocionais, o estresse e até a alimentação.
Muitos membros desses grupos estão ligados à indústria farmacêutica que, a cada ano, lucra bilhões de dólares em todo o planeta.
O relacionamento de muitos desses médicos com a indústria farmacêutica acontece através do financiamento de pesquisas científicas, muitas vezes direcionadas para a confirmação de teorias como essa.
Para quem entende de metodologia cientifica, é fácil detectar os vícios e equívocos em muitos desses trabalhos.
Além dos financiamentos, muitos médicos são agraciados com passagens, e hospedagens para participarem de simpósios, jornadas e congresso, como participantes ou palestrantes; além dos mais variados brindes como canetas, chaveiros, jantares e outros meios de sedução.
Passemos a considerar os seguintes fatos:
A presença desta bactéria no estômago de pessoas que vivem em países, cujo saneamento básico é precário como o nosso, varia de 60% a 70% e, a sua principal via de contaminação é oral.
Isso torna a falta de infra-estrutura uma das principais causas do problema. Se houvesse um maior investimento para realização de obras de saneamento, diminuiríamos consideravelmente a presença dessa bactéria no nosso organismo, além de inúmeras outras doenças como gastroenterite, por exemplo.
O mais importante: o tratamento proposto para combater esta bactéria não é definitivo, pois, não é um tratamento que imuniza o indivíduo; é um tratamento temporário. Após 24 horas do tratamento que erradicou a bactéria, esse mesmo indivíduo sendo re-infestado, passa a conviver com a possibilidade de que a bactéria possa se desenvolver novamente e desencadear um novo processo de gastrite.
Se fôssemos seguir a teoria dos mais radicais cientistas – que advogam que Helicobacter Pilory bom é Hicobacter Pilory morto , temos que passar a imaginar o absurdo de ter que tratar de 60% a 70% dos brasileiros portadores da bactéria e que, estes, continuarão se re-infectando várias vezes ao ano.
A minha queixa nos congresso que participo é contra a falta de interesse das associações médicas em divulgarem a importância da padronização de condutas e dos consensos científicos referentes aos diversos tratamentos.
Pecam, portanto, as entidades médico-científicas e os professores das escolas de medicina de que o ser humano é um todo: corpo e sentimento, alma, emoção, espírito ou outra definição que bem represente a consciência.
Por isso, a psicologia deveria estar inserida de maneira fundamental na formação do médico, assim como a anatomia é fundamental para quem exerce qualquer especialidade cirúrgica.
A falta de padronização nas diversas condutas médicas resulta, como disse anteriormente, em desperdício de bilhões de dólares e o que é pior; na formação de inúmeras doenças decorrentes dos tratamentos indevidos, como no caso que tive há pouco tempo.
Um paciente de 28 anos diz que há sete dias acordou com a garganta irritada. Foi ao médico que lhe diagnosticou amigdalite. Receitado com azitromicina e antiinflamatório não esteróide.
Dois dias depois passou a queixar-se de edema nos membros inferiores e desconforto com aumento do abdome. Sentiu-se desconfortável, sonolento, com fezes escurecidas, urina bem concentrada e de baixo débito.
Como não melhorava deixou de tomar os medicamentos por dois dias e procurou o gastroenterologista devido ao desconforto no abdômen e estômago. O paciente apresentava-se adinâmico, distensão abdominal e pressão arterial de 16 por 9.
Cabeleireiro, morador da zona rural, casado, um filho; o paciente disse ter procurado consulta particular por dificuldades de ser atendido pelo SUS e por não confiar no sistema público de atenção à saúde.
No momento, ele não apresentava edema de membros inferiores. A nossa suspeita inicial foi de gastrite erosiva hemorrágica associada a insuficiência renal pelo uso de antiinflamatório não esteróide.
Os exames solicitados foram: hemograma, sumário de urina, proteínas totais e frações, uréia e creatinina. Todos os indícios de insuficiência renal aguda foram confirmados pelos exames solicitados.
Dez dias após a primeira consulta o paciente retorna com seis quilos a menos. Na realidade, ele perdeu apenas um quilo do seu peso normal, seis quilos foi de líquido retido devido à insuficiência renal aguda por uso indevido de antiinflamatório.
Um simples casos de amigdalite que, por falta de padronização de conduta, pode resultar em morte e quando não, em mais um nefropata a mais na conta do SUS e um aposentado por invalidez à custa do INAMPS.
Como já abordei em inúmeros artigos, o uso indiscriminado de antiinflamatório está levando a uma geração de pacientes nefropatas.
Em todos eles, defendo que deveria ser restrito o uso desses medicamentos, controlados através de receituário especial.
Para isso, é preciso conscientizar a todos, principalmente, a classe médica.
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